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<channel><title><![CDATA[MAIS NORTE - Opinion]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion]]></link><description><![CDATA[Opinion]]></description><pubDate>Wed, 08 Apr 2026 01:34:48 +0100</pubDate><generator>Weebly</generator><item><title><![CDATA[Visão invisível, por Jean Cocteau]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-visao-invisivel-por-jean-cocteau]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-visao-invisivel-por-jean-cocteau#comments]]></comments><pubDate>Sat, 11 Jun 2016 23:36:23 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-visao-invisivel-por-jean-cocteau</guid><description><![CDATA[ Por BEJA SANTOS &ndash; Uma das poucas semelhan&ccedil;as entre os gigantes liter&aacute;rios e as categorias de escritores que v&atilde;o pela escala abaixo &eacute; a (quase sempre) triste sorte que est&aacute; reservada aos chamados escritos esparsos, uma categoria muito diversificada onde cabem pref&aacute;cios, posf&aacute;cios, comunica&ccedil;&otilde;es esp&uacute;rias, artigos de jornais, teor de entrevistas, e algo mais. Desta desvaloriza&ccedil;&atilde;o perante os audit&oacute;rios s [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/8413187.png?250" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:0; max-width:100%" alt=" Imagem " class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="text-align:justify;display:block;"><span><font size="4"><strong>Por BEJA SANTOS </strong>&ndash; Uma das poucas semelhan&ccedil;as entre os gigantes liter&aacute;rios e as categorias de escritores que v&atilde;o pela escala abaixo &eacute; a (quase sempre) triste sorte que est&aacute; reservada aos chamados escritos esparsos, uma categoria muito diversificada onde cabem pref&aacute;cios, posf&aacute;cios, comunica&ccedil;&otilde;es esp&uacute;rias, artigos de jornais, teor de entrevistas, e algo mais. Desta desvaloriza&ccedil;&atilde;o perante os audit&oacute;rios se podem queixar um Jos&eacute; Saramago, um Oscar Wilde ou um Jean Cocteau. Deste, a Sistema Solar publicou em Mar&ccedil;o com tradu&ccedil;&atilde;o e apresenta&ccedil;&atilde;o de An&iacute;bal Fernandes um conjunto de textos de rara beleza que s&oacute; servem para alevantar a categoria de um g&eacute;nio que se dispersou pelo teatro, pelas artes pl&aacute;sticas, n&atilde;o se eximiu &agrave; atra&ccedil;&atilde;o musical e &agrave; poesia sublime: Vis&atilde;o invis&iacute;vel.</font></span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Para quem ainda n&atilde;o se iniciou na literatura deste nome supremo, An&iacute;bal Fernandes, reserva uma surpresa gra&ccedil;as ao desvelo da apresenta&ccedil;&atilde;o. Diz Cocteau: &ldquo;Nunca tive um rosto bonito. A mocidade fazia-me o papel de beleza. A minha estrutura &oacute;ssea &eacute; boa. Por cima dela, as carnes organizam-se mal. Al&eacute;m disso, o esqueleto altera-se com o tempo e estraga-se (&hellip;) Para resumir, num corpo nem grande nem pequeno, franzino e magro, armado com p&eacute;s e m&atilde;os admiradas porque longas e muito expressivas, passei uma cara ingrata. D&aacute;-me um ar de falsa sobranceria&rdquo;. Estudante rebelde, educado numa fam&iacute;lia apaixonada por m&uacute;sica e pintura. Viveu a guerra com eleg&acirc;ncia (a sua farda tinha sido feita por um grande costureiro de Paris). Na casa dos 20 anos j&aacute; frequenta meios art&iacute;sticos de primeira grandeza, d&aacute;-se com Diaghilev, o nome lend&aacute;rio dos Ballets Russos, Erik Satie, Andr&eacute; Gide, Darius Milhaud. Torna-se dependente do &oacute;pio, desintoxica-se com dificuldade. Em 1929 surge aquele que &eacute; considerado o seu melhor romance, Les Enfants Terribles. Leva uma vida de fugas consecutivas. Est&aacute; em permanente atividade at&eacute; ao fim da vida, escrevendo p&aacute;ginas de di&aacute;rio, poemas, fazendo pintura, filmando. Como escreve An&iacute;bal Fernandes: &ldquo;Cocteau viveu ao contr&aacute;rio da invisibilidade. Foi t&atilde;o fotografado com Dal&iacute; ou Picasso, teve o seu rosto t&atilde;o conhecido com o dos atores. Nas conviv&ecirc;ncias mundanas encantava; encenava um jogo de m&atilde;os para cercar tudo de frases que n&atilde;o esqueciam a exibi&ccedil;&atilde;o de uma intelig&ecirc;ncia vertida em palavra com posi&ccedil;&otilde;es novas ou j&aacute; esquecidas do seu sentido&rdquo;. E como &eacute; bom conhec&ecirc;-lo ou rel&ecirc;-lo nesta vis&atilde;o invis&iacute;vel, uma inesperada e agrad&aacute;vel visita a um superdotado liter&aacute;rio.</span><br /><span></span><span>N&atilde;o vale a pena discorrer pela portentosa galeria que ele desvenda de homens, hist&oacute;ria e revela&ccedil;&otilde;es. Pegue-se ao acaso em par&aacute;grafos de qualidade indiscut&iacute;vel:&nbsp;</span><br /><span></span><span>&ldquo;O g&eacute;nio &eacute; uma prenda do c&eacute;u. S&oacute; nos cabe o cuidado de lhe fabricar um ve&iacute;culo, porque at&eacute; ordem contr&aacute;rio seremos for&ccedil;ados a atirar pela borda o nosso fluido e, atrav&eacute;s das arte, hipnotizar suavemente o mundo&rdquo;.</span><br /><span></span><span>&ldquo;Uma vez que a maior parte das pessoas encara a santidade como qualquer coisa insulsa e conforme a uma pureza legal, &eacute; prov&aacute;vel que a deprava&ccedil;&atilde;o represente uma maneira do g&eacute;nio dos sentidos, quer dizer, de desvio at&eacute; ao extremo de uma vertente de descida em liberdade e exterior &agrave;s regras. Disto resulta que o g&eacute;nio tal como &eacute; aceite, ou antes, tal como &eacute; tolerado, constitu&iacute;a uma deprava&ccedil;&atilde;o espiritual an&aacute;loga a uma deprava&ccedil;&atilde;o dos sentidos&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span></span><span>&ldquo;Com o &oacute;pio n&atilde;o se fazem experi&ecirc;ncias. N&atilde;o conseguimos que ele nos divirta; casa connosco. O primeiro contacto dececiona. O benef&iacute;cio s&oacute; aparece com o tempo e a beatitude manifesta-se quando &eacute; tarde para passarmos sem ela. O fumo punha-me doente. Precisei de quase tr&ecirc;s meses de enjoo para me habituar ao balan&ccedil;o e &agrave; arfagem do tapete a&eacute;reo&rdquo;.</span><br /><span></span><span>&ldquo;Um monumento que serve ou serviu n&atilde;o nos deprime com nenhuma fadiga. O Coliseu servia, a Acr&oacute;pole servia. A Esfinge servia. Por isso nos agradam. N&atilde;o &eacute; preciso saber para que serviam nem tirar proveito dos seus servi&ccedil;os. O facto de terem nascido de uma necessidade, de um objetivo ter orientado aqueles que os constru&iacute;ram e obrigado a submeter-se a regras, retira-lhes toda a desordem e toda a frivolidade. Quer se trate de espantar, agradecer, dominar, assegurar a sobreviv&ecirc;ncia dos mortos com a parecen&ccedil;a de um duplo, quer se trate de assustar com esta parecen&ccedil;a os salteadores de t&uacute;mulos, o ponto de partido n&atilde;o &eacute; temer&aacute;rio. Nunca as grandes &eacute;pocas nos puseram em face de obras destetas. Um espantalho assusta os p&aacute;ssaros e n&atilde;o nos assusta. &Eacute; a beleza de espantalho. &Eacute; a das m&aacute;scaras negras, dos totens, das esfinges do Egito&rdquo;.</span><br /><span></span><span>Trechos avulsos de um g&eacute;nio que se revisita como poucos, pelo fulgor do olhar, pela capacidade de assombrar, por se sentir que era talento inesgot&aacute;vel, moderno em toda a sua extens&atilde;o, sumptuoso e heter&oacute;clito. Uma grande oportunidade para desvendar a chamada invisibilidade de um dos maiores escritores do s&eacute;culo XX.</span><br /><span></span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ O Gerente da Noite por John le Carré – por Beja Santos]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-gerente-da-noite-por-john-le-carre-por-beja-santos]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-gerente-da-noite-por-john-le-carre-por-beja-santos#comments]]></comments><pubDate>Thu, 12 May 2016 15:04:02 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-gerente-da-noite-por-john-le-carre-por-beja-santos</guid><description><![CDATA[ 	 		 			 				 					 						          					 								 					 						  &Eacute; o mais industrioso livro de um dos maiores romancistas do nosso tempo. Notabilizado durante o per&iacute;odo da Guerra Fria por livros memor&aacute;veis como &ldquo;O espi&atilde;o que saiu do frio&rdquo;, &ldquo;A toupeira&rdquo;, &ldquo;A gente de Smiley&rdquo;, quando se desmoronou o Muro de Berlim, John le Carr&eacute; mudou de agulha e mantendo a magistralidade da escrita passou a versar os dramas do nosso tempo: a d [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-multicol"><div class="wsite-multicol-table-wrap" style="margin:0 -15px;"> 	<table class="wsite-multicol-table"> 		<tbody class="wsite-multicol-tbody"> 			<tr class="wsite-multicol-tr"> 				<td class="wsite-multicol-col" style="width:50%; padding:0 15px;"> 					 						  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/9439229_orig.png" alt=" Imagem " style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>   					 				</td>				<td class="wsite-multicol-col" style="width:50%; padding:0 15px;"> 					 						  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>&Eacute; o mais industrioso livro de um dos maiores romancistas do nosso tempo. Notabilizado durante o per&iacute;odo da Guerra Fria por livros memor&aacute;veis como &ldquo;O espi&atilde;o que saiu do frio&rdquo;, &ldquo;A toupeira&rdquo;, &ldquo;A gente de Smiley&rdquo;, quando se desmoronou o Muro de Berlim, John le Carr&eacute; mudou de agulha e mantendo a magistralidade da escrita passou a versar os dramas do nosso tempo: a desregula&ccedil;&atilde;o financeira e os seus aproveitadores; a manipula&ccedil;&atilde;o dos conflitos &eacute;tnicos como forma suave de agress&atilde;o entre pot&ecirc;ncias; a intera&ccedil;&atilde;o entre o tr&aacute;fico da droga e das armas; a cria&ccedil;&atilde;o artificial de tens&otilde;es devido ao uso de informa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o validadas ou a manig&acirc;ncia de levar antigos espi&otilde;es a encontrarem-se para serem alvo de uma opera&ccedil;&atilde;o orquestrada de falsas ondas terroristas, etc, etc.</span><br /><span></span><span>&ldquo;O Gerente da Noite&rdquo;, surge em 1993 e Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote acaba de reeditar atendendo a que o romance &eacute; a fonte inspiradora de uma popular s&eacute;rie televisiva que corre mundo.</span><br /><span></span></div>  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/7577159_orig.png" alt=" Imagem " style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>   					 				</td>			</tr> 		</tbody> 	</table> </div></div></div>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Tudo se passa quando a Guerra do Golfo acabara de rebentar, estamos em Janeiro de 1991. Jonathan Pine &eacute; o brit&acirc;nico gerente do turno da noite do luxuoso Hotel Meister Palace, em Zurique. Vai chegar um important&iacute;ssimo h&oacute;spede, o Sr. Dicky Onslow Roper, que viremos a saber &eacute; uma das figuras mais sinistras que transaciona armas poderosas. Aqui vai aparecer uma beldade morena, Madame Sophie, por conta de Freddie Hamid, um dos tr&ecirc;s irm&atilde;os Hamid, donos de uma boa parte do Cairo. Pois &eacute; esta Madame Sophie pede discretamente ao gerente da noite que copie um conjunto de documentos secretos, que se v&atilde;o revelar explosivos, trata-se de um contrato entre a Ironbrand, de Nassau, para a empresa Inter&aacute;rabe Hamid. Pine, discretamente tira uma c&oacute;pia para si e fica a saber que est&atilde;o a negociar em m&iacute;sseis e em produtos qu&iacute;micos como o Sarin. Madame Sophie pagar&aacute; com a vida a c&oacute;pia daqueles documentos que o gerente da noite entregar&aacute; a um representante da intelig&ecirc;ncia brit&acirc;nica. S&atilde;o factos que compreenderemos adiante, Jonathan Pine &eacute; recrutado pelos Servi&ccedil;os Secretos que o v&atilde;o envolver numa sofisticada opera&ccedil;&atilde;o que conduzir&aacute; o gerente da noite &agrave; confian&ccedil;a quase absoluta do grande traficante de Nassau. No fundo, a opera&ccedil;&atilde;o que se monta &eacute; de criar a imagem de que Pine &eacute; um perigoso delinquente e assassino a contas com v&aacute;rias justi&ccedil;as. Para al&eacute;m da trama se transformar numa espiral de ansiedade para o leitor, o malabarismo e o alt&iacute;ssimo recorte liter&aacute;rio de John le Carr&eacute; manifesta-se em todas as situa&ccedil;&otilde;es ao longo de 600 p&aacute;ginas. Alguns exemplos: &ldquo;Jonathan Pine, filho &uacute;nico, feito &oacute;rf&atilde;o de uma beldade alem&atilde; sucumbida ao cancro e de um sargento de infantaria brit&acirc;nico morto numa das guerras p&oacute;s-coloniais do seu pa&iacute;s&rdquo;. Mais adiante, algu&eacute;m faz o paneg&iacute;rico do traficante Roper: &ldquo;Passar o nosso tempo com o Sr. Onslow Roper &eacute; um privil&eacute;gio, um Carnaval. H&aacute; muitos que, quando abordam os meus clientes, os desprezam. Bajulam, trazem presentes, lisonjeiam, mas n&atilde;o s&atilde;o sinceros. O Sr. Roper tratava os meus clientes como seus iguais. &Eacute; um cavalheiro, n&atilde;o um snobe. O Sr. Roper felicitava-os pela sua riqueza. Por porem a render o dom que a natureza lhes proporcionara. O mundo &eacute; uma selva, dizia ele. &Eacute; correto que os fracos fiquem pelo caminho. A &uacute;nica quest&atilde;o que se p&otilde;e &eacute; a seguinte: quem s&atilde;o os fortes. Depois obsequiava-os com uma sess&atilde;o de cinema&rdquo;. A descri&ccedil;&atilde;o das festas que Roper oferece aos seus convidados &eacute; alucinante e quase explosiva, s&atilde;o manejadores, negociantes de terras, gente que proporciona a Roper uma carapa&ccedil;a de respeitabilidade, v&ecirc;m pol&iacute;ticos, triunfadores em offshores, &aacute;rabes sorridentes, magnatas malaios, judeus iraquianos com pal&aacute;cios na Gr&eacute;cia e empresas em Taiwan, advogados parolos do Wyoming, financeiros da banca comercial londrina, capatazes sabidos e sabidos encobridores das leis.&nbsp;</span><br /><span></span><span>Mas &ldquo;O Gerente da Noite&rdquo; &eacute; tamb&eacute;m uma hist&oacute;ria de amor, Jeds, a companheira de Roper e Pine, acabar&atilde;o apaixonados, tudo numa atmosfera de tens&atilde;o quase irrespir&aacute;vel. E Pine vai assistindo &agrave;s reuni&otilde;es em que se recebe droga e entregam armas. A descri&ccedil;&atilde;o que o romancista faz de um encontro num ponto ermo do Panam&aacute; &eacute; uma preciosa pe&ccedil;a liter&aacute;ria: &ldquo;O acampamento era dominado por uma tribuna, atr&aacute;s da qual havia um muro triangular branco, com slogans pintados. Mais abaixo um c&iacute;rculo de casas feitas com tijolos de cinzas e cimentos, cada uma delas com a respetiva utiliza&ccedil;&atilde;o pintada na porta em figuras obscenas: a cozinha com uma cozinheira nua da cintura para cima, a casa de banho com as suas figuras nuas no banho, a cl&iacute;nica com os seus corpos ensanguentados; a escola de instru&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e esclarecimento pol&iacute;tico, a casa dos tigres, a casa das serpentes, a casa dos macacos, o avi&aacute;rio e, num pequeno outeiro, a capela, de paredes decoradas com uma Virgem e o Menino bem roli&ccedil;os guardados por guerrilheiros armados de Kalashnikovs&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span></span><span>Jonathan Pine ser&aacute; desmascarado e &eacute; nesse preciso instante que os seus instrutores montar&atilde;o um plano para o libertar, a troco da impunidade do canalha Roper. T&ecirc;m ent&atilde;o lugar reuni&otilde;es tanto cr&iacute;pticas como surrealistas entre brit&acirc;nicos e norte-americanos, outro espanto de descri&ccedil;&atilde;o. Aceita-se como inquestion&aacute;vel o que se escreve na contracapa deste magn&iacute;fico romance: &ldquo;Numa hist&oacute;ria arrepiante sobre ag&ecirc;ncias de intelig&ecirc;ncia corruptas, etiquetas de pre&ccedil;o de milh&otilde;es de d&oacute;lares e a brutal verdade do com&eacute;rcio de armas, John le Carr&eacute; cria um mundo claustrof&oacute;bico onde n&atilde;o se pode confiar em ningu&eacute;m&rdquo;. &Eacute; o mais industrioso e o mais revelador romance dos venenos da globaliza&ccedil;&atilde;o inigualit&aacute;ria.</span><br /><span></span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Alimentação e cancro – por Beja Santos]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-alimentacao-e-cancro-por-beja-santos]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-alimentacao-e-cancro-por-beja-santos#comments]]></comments><pubDate>Sat, 30 Apr 2016 15:13:28 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-alimentacao-e-cancro-por-beja-santos</guid><description><![CDATA[ 	 		 			 				 					 						  Os doentes oncol&oacute;gicos t&ecirc;m tudo a ganhar aderindo a um regime alimentar adequado: ao come&ccedil;ar a terapia oncol&oacute;gica, esse regime alimentar renova os tecidos, mant&eacute;m as defesas do organismo, d&aacute; energia. &Eacute; um tipo de alimenta&ccedil;&atilde;o que abre as portas a uma recupera&ccedil;&atilde;o mais r&aacute;pida, assegurando os nutrientes necess&aacute;rios para uma vida ativa com qualidade.&nbsp;Para que estas mensagens gan [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<div><div class="wsite-multicol"><div class="wsite-multicol-table-wrap" style="margin:0 -15px;"> 	<table class="wsite-multicol-table"> 		<tbody class="wsite-multicol-tbody"> 			<tr class="wsite-multicol-tr"> 				<td class="wsite-multicol-col" style="width:47.866205305652%; padding:0 15px;"> 					 						  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Os doentes oncol&oacute;gicos t&ecirc;m tudo a ganhar aderindo a um regime alimentar adequado: ao come&ccedil;ar a terapia oncol&oacute;gica, esse regime alimentar renova os tecidos, mant&eacute;m as defesas do organismo, d&aacute; energia. &Eacute; um tipo de alimenta&ccedil;&atilde;o que abre as portas a uma recupera&ccedil;&atilde;o mais r&aacute;pida, assegurando os nutrientes necess&aacute;rios para uma vida ativa com qualidade.&nbsp;</span><br /><span>Para que estas mensagens ganhem conte&uacute;do, &eacute; indispens&aacute;vel saber o que &eacute; alimentar-se bem. Abreviadamente, significa consumir uma variedade de alimentos que nos fornecem nutrientes indispens&aacute;veis para a nossa sa&uacute;de e tamb&eacute;m para a luta contra o cancro: prote&iacute;nas, hidratos de carbono, gorduras, vitaminas e minerais.</span><br /><span>A partir do momento em que foi diagnosticado o cancro, &eacute; importante realizar mudan&ccedil;as nos h&aacute;bitos alimentares, real&ccedil;ando um bom consumo de prote&iacute;nas e calorias (carnes brancas, pescado pouco gorduroso, ovos, produtos l&aacute;cteos com pouca gordura, prote&iacute;nas secas&hellip;). Haver&aacute; que fugir e noutros casos moderar o consumo de bebidas industrializadas, alimentos empacotados, a&ccedil;ucarados, hipercal&oacute;ricos. Uma boa nutri&ccedil;&atilde;o traz imensos benef&iacute;cios: desenvolve mais energia para uma pronta recupera&ccedil;&atilde;o, preveni a perda de tecido corporal, combate infe&ccedil;&otilde;es, diminui os efeitos secund&aacute;rios dos tratamentos contra o cancro.&nbsp;</span><br /><span>Os tratamentos utilizados para combater o cancro encontram-se desenhados para ajudar a eliminar as c&eacute;lulas cancer&iacute;genas; por&eacute;m, estes tratamentos tamb&eacute;m afetam as c&eacute;lulas s&atilde;s e provocam efeitos secund&aacute;rios que afetam a alimenta&ccedil;&atilde;o.</span><br /><span>As pessoas que se alimentam bem durante o tratamento contra o cancro podem combater a doen&ccedil;a e tolerar melhor os efeitos secund&aacute;rios. &Eacute; uma fase em que se recomenda que se consuma uma maior quantidade de prote&iacute;nas e que se mantenha a restri&ccedil;&atilde;o nos alimentos ricos em gordura.&nbsp;</span>&#8203;</div>   					 				</td>				<td class="wsite-multicol-col" style="width:52.133794694348%; padding:0 15px;"> 					 						  <div><div class="wsite-image wsite-image-border-none " style="padding-top:10px;padding-bottom:10px;margin-left:0;margin-right:0;text-align:center"> <a> <img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/9661059_orig.png" alt=" Imagem " style="width:auto;max-width:100%" /> </a> <div style="display:block;font-size:90%"></div> </div></div>   					 				</td>			</tr> 		</tbody> 	</table> </div></div></div>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Temos a seguir a fase que sucede ao tratamento: devemos continuar a manter uma dieta equilibrada, pois uma alimenta&ccedil;&atilde;o segura e saud&aacute;vel ajuda a reconstruir os tecidos e que o doente se sinta melhor. Entidades cient&iacute;ficas de renome como a Sociedade Americana do Cancro d&atilde;o &ecirc;nfase a um quadro de comportamentos onde a alimenta&ccedil;&atilde;o tem um peso importante: o consumo adequado nas n&atilde;o excessivo de calorias; cinco por&ccedil;&otilde;es di&aacute;rias de vegetais e fruta (as verduras de folha verde escura s&atilde;o uma boa fonte de &aacute;cido f&oacute;lico); baixo conte&uacute;do de gorduras nos alimentos; consumir fontes de fibra; evitar ou reduzir ao m&aacute;ximo o consumo de carnes vermelhas, a&ccedil;&uacute;car e sal em excesso; utilizar suplementos de probi&oacute;ticos; manter um peso saud&aacute;vel; n&atilde;o descurar a atividade f&iacute;sica j&aacute; que esta melhora a fun&ccedil;&atilde;o card&iacute;aca e a for&ccedil;a muscular; reduzir o consumo de bebidas alco&oacute;licas; n&atilde;o fumar.</span><br /><span></span><span>O regime alimentar tamb&eacute;m pode amortecer os efeitos secund&aacute;rios da terapia oncol&oacute;gica. Havendo perda de apetite, esta pode ser superada comendo as refei&ccedil;&otilde;es a uma temperatura amornada, experimentar novos alimentos, casos h&aacute; em que o m&eacute;dico recomenda suplementos alimentares. Quando se perde a perce&ccedil;&atilde;o do sabor dos alimentos, pode-se recorrer a condimentos como o lim&atilde;o ou o vinagre (exceto quando h&aacute; les&otilde;es de boca); usar ervas ou especiarias desde or&eacute;g&atilde;os e tomilho at&eacute; molho de tomate; misturar fruta fresca com gelado ou iogurte. Nos casos em que o doente oncol&oacute;gico tem a boca seca, deve evitar alimentos secos e fibrosos, dar prefer&ecirc;ncia a alimentos l&iacute;quidos ou batidos e nunca se esquecer de manter h&uacute;midos os l&aacute;bios. Nos casos de &uacute;lceras na boca, as solu&ccedil;&otilde;es passam por alimentos de f&aacute;cil mastiga&ccedil;&atilde;o e degluti&ccedil;&atilde;o, evitar bebidas e alimentos &aacute;cidos ou muito salgados, de textura &aacute;spera, havendo toda a vantagem em beber muito l&iacute;quidos (ande sempre com uma garrafa de &aacute;gua), comer frutas congeladas e consumir alimentos frios. H&aacute; outros condicionalismos: reduzir os produtos com cafe&iacute;na, n&atilde;o consumir alimentos crus, optar por alimentos cremosos e evitar condimentos fortes.</span><br /><span></span><span>Mas h&aacute; outros efeitos secund&aacute;rios a ter em conta, caso das n&aacute;useas e v&oacute;mitos, diarreia e pris&atilde;o de ventre. Observe-se que as n&aacute;useas e os v&oacute;mitos s&atilde;o os primeiros sintomas que interferem com a quantidade e o tipo de alimentos que se consomem durante a terapia. &Eacute; comum as n&aacute;useas se acentuarem quando se comem alimentos picantes, gordos ou que tenham odores fortes. Entre outras sugest&otilde;es para contrariar estes sintomas, deve preferir comer em s&iacute;tios bem ventilados, separar os alimentos dos s&oacute;lidos, comer alimentos suaves e f&aacute;ceis de digerir. A radioterapia e a quimioterapia podem produzir diarreia. &Eacute; por isso que &eacute; necess&aacute;rio evitar a desidrata&ccedil;&atilde;o, ingerindo l&iacute;quidos e eletr&oacute;litos como caldos, sopas, bebidas hidratantes e sumos sem a&ccedil;&uacute;car. Importa n&atilde;o esquecer que a diarreia pode agravar-se com alimentos gordos, a&ccedil;ucarados, &aacute;cidos e com cafe&iacute;na. Beber abundantemente est&aacute; na ordem do dia. Nos casos de pris&atilde;o de ventre: consumir produtos l&aacute;cteos, consumir diariamente fruta fresca, evitar legumes flatulentos (caso da couve-flor, o repolho ou os br&oacute;colos), consumir alimentos integrais.</span><br /><span></span><span>Para contrariar a diminui&ccedil;&atilde;o de defesas, h&aacute; tamb&eacute;m um leque de op&ccedil;&otilde;es: preferir os alimentos cozinhados aos crus; comer fruta que se pode descascar; preferir o consumo de fruta vermelha; n&atilde;o consumir queijo curado ou queijos azuis; adicionar especiarias ou ervas durante a prepara&ccedil;&atilde;o da refei&ccedil;&atilde;o.</span><br /><span></span><span>Um &uacute;ltimo aspeto tem a ver com o consumo de suplementos alimentares: n&atilde;o os utilize a n&atilde;o ser por indica&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica.&nbsp;</span><br /><span></span><span>Como em tudo o que tem a ver com a alimenta&ccedil;&atilde;o, d&ecirc; primordial aten&ccedil;&atilde;o &agrave; higiene: da superf&iacute;cie onde prepara os alimentos, separar os espa&ccedil;os onde prepara a carne dos legumes; cozinhar bem os alimentos, n&atilde;o comer peixe nem marisco cru.&nbsp;</span><br /><span></span><span>Lembre-se em todas as circunst&acirc;ncias que a comida n&atilde;o &eacute; s&oacute; prazer deve ser um dos utens&iacute;lios essenciais para vencer a doen&ccedil;a.&nbsp;</span>&#8203;<br /><span></span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ O maior bem que podemos fazer, por Peter Singer]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-maior-bem-que-podemos-fazer-por-peter-singer]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-maior-bem-que-podemos-fazer-por-peter-singer#comments]]></comments><pubDate>Tue, 19 Apr 2016 23:15:21 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-maior-bem-que-podemos-fazer-por-peter-singer</guid><description><![CDATA[ OPINI&Atilde;O DE&nbsp;Beja Santos &ndash;&nbsp;As ci&ecirc;ncias da ecologia cedo se impuseram pelos seus apelos &agrave; &eacute;tica e &agrave; responsabiliza&ccedil;&atilde;o. Quando, no in&iacute;cio dos anos 1960, Rachel Carson denunciou os perigos de pesticidas como o DDT, com o seu best-seller &ldquo;Primavera silenciosa&rdquo;, estava n&atilde;o s&oacute; a lan&ccedil;ar as bases cient&iacute;ficas das ci&ecirc;ncias do ambiente como a despertar uma nova dimens&atilde;o da cidadania qu [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/7227919_orig.png" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; none; max-width:100%" alt=" Imagem " class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="text-align:justify;display:block;"><span><font size="4">OPINI&Atilde;O DE&nbsp;</font></span><strong style="color: rgb(102, 102, 102); line-height: 1.5; background-color: transparent;"><font size="4">Beja Santos &ndash;&nbsp;</font></strong><span>As ci&ecirc;ncias da ecologia cedo se impuseram pelos seus apelos &agrave; &eacute;tica e &agrave; responsabiliza&ccedil;&atilde;o. Quando, no in&iacute;cio dos anos 1960, Rachel Carson denunciou os perigos de pesticidas como o DDT, com o seu best-seller &ldquo;Primavera silenciosa&rdquo;, estava n&atilde;o s&oacute; a lan&ccedil;ar as bases cient&iacute;ficas das ci&ecirc;ncias do ambiente como a despertar uma nova dimens&atilde;o da cidadania que foi gradualmente manifestando-se nos longos e intensos debates sobre a globaliza&ccedil;&atilde;o positiva ou negativa, o consumo &eacute;tico, o consumo respons&aacute;vel, a responsabilidade social, o com&eacute;rcio justo, o bem-estar animal, os financiamentos sustent&aacute;veis e a banca &eacute;tica, o desenvolvimento sustent&aacute;vel, em suma. Assim se foi enveredando pelo paradigma ambiental e a considera&ccedil;&otilde;es sobre o bem que podemos fazer para melhorar a nossa rela&ccedil;&atilde;o com os outros e o planeta: n&atilde;o maltratar e praticar um altru&iacute;smo eficaz, tese muito cara ao pensador Peter Singer, patente no seu &uacute;ltimo t&iacute;tulo aparecido em Portugal &ldquo;O maior bem que podemos fazer&rdquo;, por Peter Singer, Edi&ccedil;&otilde;es 70, 2016, Neste seu &uacute;ltimo livro, Singer retoma o tema de obriga&ccedil;&atilde;o de ajudar num contexto de movimento social, e designa esta corrente por altru&iacute;smo eficaz, que ele assim categoriza: &ldquo;O nosso ver fundamental consiste em fazer sempre aquilo que resulte nas melhores consequ&ecirc;ncias &ndash; e as melhores consequ&ecirc;ncias, por sua vez, correspondem sempre &agrave;quela situa&ccedil;&atilde;o em que h&aacute; um maior bem-estar global&rdquo;. Trata-se de um ensaio onde se discreteia sobre como devemos fazer o maior bem que podermos.&nbsp;</span>&#8203;</div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Conv&eacute;m ter em conta que a vasa reflex&atilde;o do pensador est&aacute; centrada nos EUA onde existe um milh&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es de benefic&ecirc;ncia, mobilizando milhares de milh&otilde;es de d&oacute;lares. Dentro da benefic&ecirc;ncia, Singer procura a efic&aacute;cia, um altru&iacute;smo que permita alargar os nossos horizontes morais, usar a raz&atilde;o para avaliar as consequ&ecirc;ncias prov&aacute;veis das nossas a&ccedil;&otilde;es. Por conseguinte, o contexto em que o pensador labora nem sempre nos &eacute; f&aacute;cil de captar. Quando ele diz que os altru&iacute;stas eficazes vivem modestamente e doam uma boa parte do seu rendimento &agrave;s institui&ccedil;&otilde;es de benefic&ecirc;ncias mais eficazes, que procuram escolher uma carreira na qual possam ganhar mais, n&atilde;o para viverem de forma opulenta, mas para poderem fazer o maior bem, &eacute; certo e seguro que esta corrente carece, a n&iacute;vel europeu, de ajustamentos, est&aacute; demonstrado que a corrente da simplicidade volunt&aacute;ria tem um n&uacute;mero limitado de adeptos e que aqueles que tudo procuram para viver frugalmente, vivam ou n&atilde;o em irmandade religiosa ou comunidade espiritual s&atilde;o uma raridade. Isto para enfatizar que carece de reexame uma frase de Singer. &ldquo;O altru&iacute;smo eficaz &eacute; para pessoas com origens muito diversas e para pessoas que, embora vivam em sociedades ricas n&atilde;o ganham mais, e, por vezes, at&eacute; ganham menos do que o rendimento m&eacute;dio da sua sociedade. Ao darem, por exemplo, 10% dos seus rendimentos a institui&ccedil;&otilde;es de benefic&ecirc;ncias eficazes, podem salvar vidas, curar a cegueira ou marcar uma enorme diferen&ccedil;a nas vidas de pessoas que podem viver com um rendimento que &eacute;, em poder de compra, equivalente a 1 ou 2% do rendimento m&eacute;dio nos EUA&rdquo;. Este altru&iacute;smo eficaz &eacute; escalpelizado na sua motiva&ccedil;&atilde;o e justifica&ccedil;&atilde;o e no modo de escolher causas e organiza&ccedil;&otilde;es para a praticar. &Eacute; uma longa viagem em que se fala da empatia nas justifica&ccedil;&otilde;es para a pr&aacute;tica do altru&iacute;smo e a felicidade que carretam as op&ccedil;&otilde;es.</span><br /><span></span><span>Bem curiosa &eacute; a paleta que o autor nos d&aacute; para o processo de escolha da organiza&ccedil;&atilde;o que se adequa ao modo de vermos a efic&aacute;cia em altru&iacute;smo. Entre outros exemplos fala-nos da OXFAM, uma conceituada organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental que se pauta pelo com&eacute;rcio justo e modos de produ&ccedil;&atilde;o e consumo sustent&aacute;veis. Fala-nos de um caso ocorrido no Estado de Pernambuco onde uma refinaria de a&ccedil;&uacute;car se apoderou de terras de gente pobre de forma discricion&aacute;ria e autorit&aacute;ria. A solidariedade da OXFAM foi apelar &agrave;s marcas de produtos alimentares que mostrassem lideran&ccedil;a &eacute;tica, rep&uacute;dio a quaisquer contratos comerciais com esta refinaria. Foi o caso da Nestl&eacute;, da Coca-Cola, da Pepsi-Cola, entre outros. A refinaria recuou. E observa: &ldquo;A produ&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; uma op&ccedil;&atilde;o atraente porque responde aos cr&iacute;ticos que dizem que a ajuda trata apenas os sintomas da pobreza global, deixando intactas as suas causas. Trabalhar para mudar as pr&aacute;ticas comerciais injustas que desfavorecem os pa&iacute;ses em desenvolvimento &eacute; uma maneira de abordar pelo menos algumas das casas da pobreza&rdquo;.</span><br /><span></span><span>E a jeito de despedida, o autor prev&ecirc; que haver&aacute; uma massa cr&iacute;tica de altru&iacute;stas eficazes e nessa altura j&aacute; n&atilde;o parecer&aacute; estranho que uma pessoa veja &ldquo;o maior bem que posso fazer&rdquo; como um importante objetivo de vida. E diz mais: &ldquo;Se o altru&iacute;smo eficaz se popularizar, &eacute; de esperar que alastre de forma mais r&aacute;pida, uma vez que se perceber&aacute; ent&atilde;o que &eacute; f&aacute;cil fazermos muitas coisas boas e, por isso, sentirmo-nos melhor com a nossa vida. O aparecimento dessa massa cr&iacute;tica depender&aacute; da disposi&ccedil;&atilde;o das pessoas do mundo inteiro para adotarem um novo ideal &eacute;tico: fazer o maior bem que puderem&rdquo;.&nbsp;</span>&#8203;<br /><span></span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ O exílio, os camaradas da política e da escrita, os construtores da História﻿]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-exilio-os-camaradas-da-politica-e-da-escrita-os-construtores-da-historia]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-exilio-os-camaradas-da-politica-e-da-escrita-os-construtores-da-historia#comments]]></comments><pubDate>Thu, 24 Mar 2016 18:48:14 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-o-exilio-os-camaradas-da-politica-e-da-escrita-os-construtores-da-historia</guid><description><![CDATA[ Manuel Alegre viveu o ex&iacute;lio, redigiu comunicados e proclama&ccedil;&otilde;es, esteve &agrave; frente de emiss&otilde;es radiof&oacute;nicas em Argel, conheceu os c&oacute;digos da clandestinidade, regressou e manteve-se na pol&iacute;tica e na escrita, est&aacute; sempre em regresso. Vem agora em &ldquo;Uma outra mem&oacute;ria&rdquo;, Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 2016, com uma reuni&atilde;o de textos que se encontravam dispersos, confirmar a destreza que ganhou no passado,  [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:417px;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/556070.png?399" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt=" Imagem " class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="display:block;"><span>Manuel Alegre viveu o ex&iacute;lio, redigiu comunicados e proclama&ccedil;&otilde;es, esteve &agrave; frente de emiss&otilde;es radiof&oacute;nicas em Argel, conheceu os c&oacute;digos da clandestinidade, regressou e manteve-se na pol&iacute;tica e na escrita, est&aacute; sempre em regresso. Vem agora em &ldquo;Uma outra mem&oacute;ria&rdquo;, Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 2016, com uma reuni&atilde;o de textos que se encontravam dispersos, confirmar a destreza que ganhou no passado, nesses textos curtos que deviam ser retidos quase como palavras de ordem, como verbos de combate, mensagens portadoras de um timbre declamat&oacute;rio, por vezes um tom manifestamente &eacute;pico, uma voz de camarada para camaradas, cumplicidade das letras, um alerta para o Norte dos princ&iacute;pios, uma lembran&ccedil;a de jovem octogen&aacute;rio para outros portadores de sonhos. N&atilde;o ser&aacute; por acaso que o subt&iacute;tulo da obra inclui &ldquo;A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span>S&atilde;o pe&ccedil;as breves, outras curt&iacute;ssimas, mas com sabor imemorial. Veja-se a recorda&ccedil;&atilde;o guardada de M&aacute;rio Cesariny:&nbsp;</span><br /><span>&ldquo;Escreveu alguns dos poemas maiores da poesia portuguesa. Encontrei-o, pela &uacute;ltima vez, uma noite no Pr&iacute;ncipe Real. Trazia uma capa preta pelos ombros. Parecia o Pr&iacute;ncipe das Trevas, mas n&atilde;o era, porque dele irradiava sempre uma luz&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span>Tra&ccedil;a quadros vigorosos dos seus camaradas de escrita e faz po&eacute;tica, f&aacute;-los grandiloquentes, medi&uacute;nicos, dan&ccedil;arinos astrais. Sobre Miguel Torga: &ldquo;N&atilde;o sei se quando Torga se debru&ccedil;ava sobre o Mondego olhava apenas as suas &aacute;guas. Talvez se debru&ccedil;asse sobre os grandes rios do Mundo e os outros, mais obscuros e profundos, da sua imagina&ccedil;&atilde;o. Ou talvez se debru&ccedil;asse sobre si mesmo, sobre as perguntas que constante e dolorosamente se fazia e constituem o cerne da sua escrita. Creio, ali&aacute;s, que era assim que ele entendia a literatura: uma arte de perguntar, mesmo que n&atilde;o se encontre a resposta&rdquo;. Chamou feiticeira Cotovia a Nat&aacute;lia Correia e redige empolgado, fala dela como uma aus&ecirc;ncia que d&oacute;i, e dita-lhe admira&ccedil;&atilde;o imensa: &ldquo;A poesia de Nat&aacute;lia &eacute; uma das raras poesias fundadoras. Porque sendo moderna, entronca na grande tradi&ccedil;&atilde;o l&iacute;rica portuguesa. Porque sendo fiel &agrave; raiz, foi profundamente transgressora e cantou a dimens&atilde;o &lsquo;transportuguesa&rsquo; de Portugal.</span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>E h&aacute; aqueles momentos decisivos, irrepet&iacute;veis, que nos alteram o curso da vida. Manuel Alegre n&atilde;o esquece o dia 31 de Maio de 1958, Humberto Delgado percorre triunfalmente Coimbra, as coisas ter-se-&atilde;o passado assim: &ldquo;Eu estava perto do Ast&oacute;ria. Ele vinha de p&eacute;, no carro aberto, sorridente, agitando freneticamente os bra&ccedil;os. Delgado n&atilde;o saudava, puxava por n&oacute;s, levantava-nos do ch&atilde;o, Jos&eacute; Saramago que me perdoe. Passou mesmo &agrave; minha frente. A meu lado estava um homem muito alto, com um filho ao colo. Com as l&aacute;grimas pela cara abaixo, levantou o filho acima da cabe&ccedil;a e gritou: Oh meu general, salva o meu filho dos tiranos. Esse foi o momento que mudou a minha vida. Humberto Delgado e aquele homem de quem n&atilde;o sei o nome fizeram de mim um revolucion&aacute;rio&rdquo;. E h&aacute; as imagens impressivas de amigos que tiveram o seu momento &aacute;ureo na pol&iacute;tica e que hoje s&oacute; s&atilde;o rememorados em c&iacute;rculos restritos. &Eacute; o caso de Jos&eacute; Lu&iacute;s Nunes, assim esculpido: &ldquo;Tinha o tique de co&ccedil;ar o nariz com a m&atilde;o por detr&aacute;s da cabe&ccedil;a. Era por certo uma das intelig&ecirc;ncias mais fulgurantes da gera&ccedil;&atilde;o que no in&iacute;cio dos anos 60 come&ccedil;ou a abalar o regime salazarista. Estou a v&ecirc;-lo ainda muito jovem, a perfilar-se e a bater os calcanhares de cada vez que beijava a m&atilde;o a uma senhora. Um elitista-antifascista. Foi um dos fundadores do PS, deputado pelo c&iacute;rculo do Porto, presidente do Grupo Parlamentar, membro destacado da Comiss&atilde;o de Defesa, integrou a delega&ccedil;&atilde;o parlamentar da Assembleia da Rep&uacute;blica do Conselho da Europa e foi vice-presidente e presidente da Assembleia Parlamentar da NATO. Um dia, numa visita a instala&ccedil;&otilde;es militares desta organiza&ccedil;&atilde;o, mostrou tais conhecimentos sobre armamento e estrat&eacute;gia que um general americano perguntou at&oacute;nito a outro deputado portugu&ecirc;s: quem &eacute; este general? Talvez esse gostasse de ter sido general. De certo modo foi: um general da inquieta&ccedil;&atilde;o, do inconformismo e da liberdade&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span>Ser&aacute; imposs&iacute;vel o leitor n&atilde;o se render a certas homenagens que ele presta, caso de Jos&eacute; Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes. E revela tamb&eacute;m o seu esp&iacute;rito combativo, brandindo o florete ideol&oacute;gico falando do que &eacute; ser bom ou mau socialista, da crise europeia, das liberdades, dos corredores da utopia. Um &aacute;lbum de recorda&ccedil;&otilde;es, uma escrita empolgante onde cabem poetas, lutadores pol&iacute;ticos, encontros e at&eacute; desencontros. L&ecirc;-se e aflora a escrita do militante, de revolucion&aacute;rio, do roble po&eacute;tico que n&atilde;o desarma de empunhar as fontes da boa escrita.&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;</span>&#8203;</div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ A memória colonial e o trabalho do artista Vasco Araújo﻿]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-a-memoria-colonial-e-o-trabalho-do-artista-vasco-araujo]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-a-memoria-colonial-e-o-trabalho-do-artista-vasco-araujo#comments]]></comments><pubDate>Thu, 24 Mar 2016 18:45:19 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-a-memoria-colonial-e-o-trabalho-do-artista-vasco-araujo</guid><description><![CDATA[ Nas d&eacute;cadas subsequentes &agrave; descoloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa foi n&iacute;tida a indecis&atilde;o dos artistas pl&aacute;sticos no tratamento da mat&eacute;ria colonial, incluindo o cortejo das guerras e o sofrimento que provocou. Quem arrebitou primeiro foi a literatura, a come&ccedil;ar pelos antigos combatentes, basta pensar em Manuel Alegre, Ant&oacute;nio Lobo Antunes, Martins Garcia, mas n&atilde;o esquecendo L&iacute;dia Jorge e os escritores africanos. Deu-se a segui [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:396px;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/3949615.png?380" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; none; max-width:100%" alt=" Imagem " class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="display:block;"><span>Nas d&eacute;cadas subsequentes &agrave; descoloniza&ccedil;&atilde;o portuguesa foi n&iacute;tida a indecis&atilde;o dos artistas pl&aacute;sticos no tratamento da mat&eacute;ria colonial, incluindo o cortejo das guerras e o sofrimento que provocou. Quem arrebitou primeiro foi a literatura, a come&ccedil;ar pelos antigos combatentes, basta pensar em Manuel Alegre, Ant&oacute;nio Lobo Antunes, Martins Garcia, mas n&atilde;o esquecendo L&iacute;dia Jorge e os escritores africanos. Deu-se a seguir a aflora&ccedil;&atilde;o da investiga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, trabalho dif&iacute;cil atendendo &agrave; carga emotiva fort&iacute;ssima daqueles que consideravam que a descoloniza&ccedil;&atilde;o fora tudo menos exemplar. Hoje, s&atilde;o consider&aacute;veis as obras de m&eacute;rito sobre a guerra, os teatros de opera&ccedil;&otilde;es e as an&aacute;lises retrospetivas sobre o adeus ao Imp&eacute;rio. &Eacute; certo que houve o cinema muito mais cedo que a escultura, as instala&ccedil;&otilde;es e a pintura. E, inopinadamente, foram aparecendo trabalhos e a curiosidade p&uacute;blica respondeu &agrave; chamada. Manuel Botelho tem vindo a distinguir-se pelas suas diferentes orienta&ccedil;&otilde;es na fotografia, na aguarela, na instala&ccedil;&atilde;o. E Vasco Ara&uacute;jo revela-se impar&aacute;vel, &eacute; de uma curiosidade insaci&aacute;vel a explorar temas e apresenta&ccedil;&otilde;es reportados ao colonialismo. Acresce que manipula v&aacute;rios saberes com mestria no campo das ci&ecirc;ncias sociais e humanas. O livro &ldquo;Demasiado pouco, demasiado tarde, Pintura, escultura, fotografia e filme&rdquo;, Sistema Solar, 2015, corresponde ao trabalho apresentado no Centro Internacional das Artes Jos&eacute; Guimar&atilde;es, em Guimar&atilde;es. O artista explica-se nas suas motiva&ccedil;&otilde;es: interessa-se cada vez mais por exposi&ccedil;&otilde;es contextualizadas com outros objetos, com outras pe&ccedil;as vindas de outros contextos, objetos e lugares aleg&oacute;ricos, e na exposi&ccedil;&atilde;o de Guimar&atilde;es cruzam-se fantasmas e a hist&oacute;ria, catadupas de plantas e jardins, coisas dom&eacute;sticas que remetem para o &iacute;ntimo, tecidos de decora&ccedil;&atilde;o, uma mesa de sala de jantar. E h&aacute; o v&iacute;deo, objetos a falar, retratos, est&aacute;tuas africanas.&nbsp;</span>&#8203;</div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Vasco Ara&uacute;jo n&atilde;o esconde a atra&ccedil;&atilde;o pelas pequenas hist&oacute;rias, a invers&atilde;o dos centros, o pr&oacute;prio livro parece uma edi&ccedil;&atilde;o &agrave;s avessas, uma escrita com verso e reverso. Uma exposi&ccedil;&atilde;o onde se interpenetram pintura, escultura, fotografia e filme, estampas com animais e plantas, jardins aparentemente inveros&iacute;meis, aqui &eacute; tudo da estatu&aacute;ria, textos aparentemente anacr&oacute;nicos e h&aacute; aquela mesa, talvez a pe&ccedil;a mais aliciante da exposi&ccedil;&atilde;o em que debaixo do tampo as esculturas africanas pendem como estalagmites, como indutoras de um passado colonial que aquele tampo de mesa aparenta esquecer o peso da mem&oacute;ria colonial. Naquele amplo espa&ccedil;o exp&otilde;em-se, com uma sensa&ccedil;&atilde;o de herb&aacute;rio, temas vegetalistas e frases incompreens&iacute;veis. Mas voltemos &agrave; mesa, o fecho de ab&oacute;bada desta exposi&ccedil;&atilde;o: o tampo n&atilde;o &eacute; liso, h&aacute; para ali resqu&iacute;cios de uma mem&oacute;ria descritiva e frases com conte&uacute;do explosivo: &ldquo;Enquanto houve negros viveremos no medo&rdquo;, mas tamb&eacute;m &ldquo;Foram feitos muitos abusos. As boas matas de caf&eacute; foram todas apanhadas pelos colonos. Qualquer pretexto servia. Expulsavam a popula&ccedil;&atilde;o para as terras piores. E faziam escravos&rdquo;. Algu&eacute;m replica que esse tempo dos escravos j&aacute; acabou, a resposta &eacute; discordante: &ldquo;&Eacute; o que se pensa, mas h&aacute;. Os pr&oacute;prios roceiros n&atilde;o o negam, tal como sobre os maus tratas aos trabalhadores, mas n&atilde;o &eacute; bom falar. N&atilde;o se pode dizer em voz alta, mas foi a verdade que eu vi. O chicote funciona todo o dia, por tudo e por nada. E ainda mandam crucificar gente&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span></span><span>E h&aacute; textos aterradores, com cr&iacute;tica indisfar&ccedil;ada numa certa bonomia da mem&oacute;ria: &ldquo;O meu pai acreditava num reviralho, numa &Aacute;frica branca na qual os negros haviam de se assimilar, cal&ccedil;ar, ir &agrave; escola e trabalhar. Os negros haviam de sorrir-nos, sempre e agradecer-nos o que fiz&eacute;ramos pela sua terra, quer dizer, pela nossa terra e servir-nos, evidentemente, porque eram negros e n&oacute;s brancos&rdquo;. Parecem confiss&otilde;es mansas e bondosas, em que o rancor est&aacute; ausente e o racismo mais odiento nem parece sentido: &ldquo;Os escravos n&atilde;o se de fiar totalmente, porque est&atilde;o sempre &agrave; espera da primeira ocasi&atilde;o para nos enganarem e fugirem. Para eles, o que conta &eacute; voltar ao local de origem, fazer tudo para regressar ao mato&rdquo;. Tudo isto s&atilde;o mem&oacute;rias, os materiais disseminam-se e ganham o poder de se articular at&eacute; que o visitante sente que todo este c&oacute;digo pl&aacute;stico fala de um n&uacute;mero em que &eacute; demasiado tarde fingir que aquele colonialismo tecido de rela&ccedil;&otilde;es humanas, de ordem afetiva ou sexual n&atilde;o foi tremendamente devastador.&nbsp;</span><br /><span></span><span>Quanto ao livro &ldquo;Demasiado pouco, demasiado tarde&rdquo; &eacute; um prazer para os olhos pelo seu primoroso desenho gr&aacute;fico.</span><br /><span></span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ Luís II da Baviera, por Guy de Pourtalès]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-luis-ii-da-baviera-por-guy-de-pourtales]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-luis-ii-da-baviera-por-guy-de-pourtales#comments]]></comments><pubDate>Mon, 07 Mar 2016 20:35:04 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-luis-ii-da-baviera-por-guy-de-pourtales</guid><description><![CDATA[ BEJA SANTOS &ndash; Enquadrados pelo discurso abreviado dos telejornais, submetidos a uma ditadura branda de frases feitas, capturados por um discurso pol&iacute;tico preparado pelos construtores de imagem, fomos amestrados para olhar para a literatura, o ensaio e a biografia como produtos de comida r&aacute;pida. Em boa hora se edita Guy de Pourtal&egrave;s, nome sonante na francofonia, tendo-se distinguido no per&iacute;odo entre as duas guerras por biografias onde couberam compositores music [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:258px;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/2238313.png?248" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; none; max-width:100%" alt="Imagem" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="text-align:justify;display:block;"><strong>BEJA SANTOS &ndash; </strong>Enquadrados pelo discurso abreviado dos telejornais, submetidos a uma ditadura branda de frases feitas, capturados por um discurso pol&iacute;tico preparado pelos construtores de imagem, fomos amestrados para olhar para a literatura, o ensaio e a biografia como produtos de comida r&aacute;pida. Em boa hora se edita Guy de Pourtal&egrave;s, nome sonante na francofonia, tendo-se distinguido no per&iacute;odo entre as duas guerras por biografias onde couberam compositores musicais como Franz Liszt ou Chopin, Wagner ou Berlioz, nunca escondeu a sua atra&ccedil;&atilde;o pela Europa rom&acirc;ntica. Os seus relatos s&atilde;o dominados pela linguagem sensorial, pelo sentimento da paix&atilde;o, h&aacute; neles o prazer da escrita que tantas vezes confunde o bi&oacute;grafo com o romancista, que tamb&eacute;m o foi.&nbsp;<br />Como escreve na apresenta&ccedil;&atilde;o An&iacute;bal Fernandes, este seu trabalho sobre o Lu&iacute;s II da Baviera foi reconhecido como primeiro a revelar um pouco mais do estranho homem que ficou na Hist&oacute;ria como idealizador de castelos mirabolantes e pela sua paix&atilde;o por tudo quanto Richard Wagner compunha. O que mais fascina ao ler Lu&iacute;s II da Baviera &eacute; sentir que o bi&oacute;grafo quer intimidade com o leitor, s&atilde;o conversas demoradas, h&aacute; um pacto de cultura, o leitor n&atilde;o pode ser defraudado, tudo quanto l&ecirc; &eacute; um enriquecimento que decorre da investiga&ccedil;&atilde;o e das oficinas da boa literatura. E a tradu&ccedil;&atilde;o de An&iacute;bal Fernandes faz o resto.&nbsp;</div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Primeiro, situar a Baviera, um pa&iacute;s farto, id&iacute;lico, em que Lu&iacute;s I, que quisera fazer de Munique uma nova Atenas, se perdera de amores por uma tal Lola Montez, o povo n&atilde;o gostou, suceder-lhe-&aacute; Maximiliano, &eacute; aqui que come&ccedil;ar&aacute; a hist&oacute;ria de um pr&iacute;ncipe de conto de fadas, antes dos castelos que ele mandar&aacute; construir. Estes pr&iacute;ncipes alem&atilde;es casam-se entre si, da&iacute; o sangue praticamente enfermo dos Brunswick-Hannover e Brunswick-Holenzollern. A Baviera j&aacute; distingue pelos seus castelos, no romantismo o nome Hohenschwangau &eacute; referido como uma fantasmagoria que &eacute; obrigat&oacute;rio conhecer. &Eacute; nessa corte que vive Lu&iacute;s e o seu irm&atilde;o Otto. O pr&iacute;ncipe herdeiro ir&aacute; ouvir em 1861 duas &oacute;peras de Wagner, Tannh&auml;user e Lohengrin, tem 16 anos, nasce o fasc&iacute;nio que o acompanhar&aacute; por toda a vida. Escassos anos depois, Lu&iacute;s &eacute; rei da Baviera. O jovem rei quer conhecer Wagner, convida-o e recebe-o no seu castelo de Berga. Sens&iacute;vel aos requintes da hospitalidade, Wagner, bem instalado e com uma generosa pens&atilde;o anual, come&ccedil;a a trabalhar em futuros projetos. &Eacute; neste contexto que surge a &oacute;pera O Navio Fantasma, e iniciam-se os preparativos de um trabalho fulcral de Wagner, Trist&atilde;o e Isolda, estreada em 1865, &eacute; um triunfo apote&oacute;tico. Wagner vai preparando outras obras-primas e Lu&iacute;s exige que tudo quanto vai ser produzido merece ser ouvido na maior das intimidades. As intrigas, os comet&aacute;rios mordazes da imprensa ferem o jovem rei. O governo amea&ccedil;a demitir-se em bloco, o rei adorador da m&uacute;sica wagneriana ouve, em desespero, a senten&ccedil;a dos seus pol&iacute;ticos: &ldquo;Sua Majestade ter&aacute; de escolher o amor e a felicidade do seu povo ou a amizade de um homem desprezado por tudo quanto existe de bom e saud&aacute;vel no reino&rdquo;. Sem alternativa, Wagner parte para o ex&iacute;lio. Lu&iacute;s II &eacute; um rei de pendor absolutista e anda distra&iacute;do, n&atilde;o consegue avaliar o que trama Bismarck, ele sonha com a unifica&ccedil;&atilde;o da Alemanha, prepara, passo a passo, a anula&ccedil;&atilde;o da Baviera, Saxe e Wurttemberg.</span><br /><span>Guy de Pourtal&egrave;s vai tecendo a malha dessa rela&ccedil;&atilde;o t&atilde;o complexa entre um monarca amante das artes, solipsista, e um Wagner que n&atilde;o olha a meios para construir um dos mais vision&aacute;rios e criativos espa&ccedil;os musicais de todos os tempos. Vejamos como ele descreve a antestreia do Ouro do Reno: &ldquo;Depois de entrar no seu camarote, onde fica sozinho com Wagner, pede para apagarem as luzes. De resto, a sala quase vazia tamb&eacute;m est&aacute; escura. Perante os dois poetas este &uacute;ltimo ensaio geral decorre com toda a perfei&ccedil;&atilde;o e ele deixa o rei t&atilde;o contente, que no seu regresso ao Ermitage ele acaba por consentir em atravessar a cidade&rdquo;. &Eacute; aclamado por uma multid&atilde;o exuberante, mas o rei esquiva-se. O p&uacute;blico tem autoriza&ccedil;&atilde;o para no dia seguinte assistir ao ensaio da Valqu&iacute;ria. Lu&iacute;s continua a construir febrilmente castelos, e, Herrenchiemsee surge um castelo de fadas, assim descrito: &ldquo;Uma fachada com 300 metros de comprido, furada por 23 janelas monumentais; uma escada com 35 metros e 13 de largura; um quarto de dormir com 14 metros; uma galeria com espelhos que chegam a 75, s&atilde;o os n&uacute;meros que ele imp&otilde;e aos seus arquitetos. O ouro e o m&aacute;rmore fazem profus&atilde;o, os quadros s&atilde;o encomendados &agrave;s grosas. Na galeria dos espelhos h&aacute; 16 janelas e mais de 2 mil velas a refletirem-se neles. O quarto de dormir do rei &eacute; o que ele pode imaginar de mais precioso. Um trono &uacute;nico: a cama sob um estrado com uma balaustrada de ouro esculpido a cerc&aacute;-la. Est&aacute; coberta com a colcha bordada, que d&aacute; a 20 mulheres trabalha para 7 anos&rdquo;.</span><br /><span>O rei cada vez mais isolado, Bismarck, a partir de Berlim, aperta o cerco. A d&iacute;vida real cresce em espiral, o monarca isola-se, d&aacute; sinais de loucura, &eacute; destitu&iacute;do. Vai viver no castelo de Berga, pede para dar um passeio com um m&eacute;dico no lago de Starnberg. Aparecer&atilde;o mortos, a flutuar, nunca se apurou o que se ter&aacute; passado. Nesse preciso momento da trag&eacute;dia, ser&aacute; visitado por outra figura tr&aacute;gica, a Imperatriz Sissi, a mulher de Francisco Jos&eacute;: o filho ter-se-&aacute; suicidado, a irm&atilde; queimada viva, ela vir&aacute; a ser apunhalada por um anarquista em Genebra. &Eacute; o fim de uma &eacute;poca, est&aacute; a nascer o II Reich, Lu&iacute;s da Baviera, rom&acirc;ntico e absolutista, n&atilde;o tem lugar nesse mundo onde s&oacute; Wagner ser&aacute; recordado.</span><br /><span>&nbsp; &nbsp; Uma narrativa admir&aacute;vel, ningu&eacute;m poder&aacute; ficar insens&iacute;vel a esta sugestiva narrativa de Guy de Pourtal&egrave;s. De leitura obrigat&oacute;ria.</span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Memórias SOMânticas: a pujança da literatura guineense ]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-memorias-somanticas-a-pujanca-da-literatura-guineense]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-memorias-somanticas-a-pujanca-da-literatura-guineense#comments]]></comments><pubDate>Mon, 07 Mar 2016 20:31:01 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-memorias-somanticas-a-pujanca-da-literatura-guineense</guid><description><![CDATA[ BEJA SANTOS &ndash; &ldquo;Mem&oacute;rias SOM&acirc;nticas&rdquo;, &eacute; o mais recente t&iacute;tulo de Abdulai Sila, Ku Si Mon Editora, 2016. At&eacute; agora, dava como dificilmente ultrapass&aacute;vel a obra de Filinto Barros &ldquo;Kikia Matcho&rdquo;, a dolorosa narrativa de um combatente que tudo dera para ter uma p&aacute;tria e que depois o ignorou. Aqui h&aacute; uns anos, fui procurado por uma antrop&oacute;loga alem&atilde;, Tina Kramer, que me veio pedir ajuda para a sua digre [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:227px;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/6244395.png?208" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Imagem" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="text-align:justify;display:block;"><span><strong>BEJA SANTOS &ndash; </strong>&ldquo;Mem&oacute;rias SOM&acirc;nticas&rdquo;, &eacute; o mais recente t&iacute;tulo de Abdulai Sila, Ku Si Mon Editora, 2016. At&eacute; agora, dava como dificilmente ultrapass&aacute;vel a obra de Filinto Barros &ldquo;Kikia Matcho&rdquo;, a dolorosa narrativa de um combatente que tudo dera para ter uma p&aacute;tria e que depois o ignorou. Aqui h&aacute; uns anos, fui procurado por uma antrop&oacute;loga alem&atilde;, Tina Kramer, que me veio pedir ajuda para a sua digress&atilde;o na Guin&eacute;-Bissau, pretendia recolher depoimentos sobre a reconcilia&ccedil;&atilde;o nacional e o sentir dos combatentes do PAIGC passadas estas d&eacute;cadas. Procurei ser &uacute;til, e a Tina partiu levando como int&eacute;rprete e motorista Abudu Sonc&oacute;, meu irm&atilde;o no Cuor. Passaram-se os meses, e eu ansioso por conhecer os detalhes desta pesquisa em ci&ecirc;ncias sociais. A Tina veio um tanto atarantada, o Abudu vinha em estado lamentoso com o que vira e ouvira. Tinham percorrido as profundezas do pa&iacute;s, pedido para contactar gente que habitara em locais dur&iacute;ssimos, como Mor&eacute;s, a mata de Fiofioli, Kubukar&eacute;, em Sara &ndash; Sarauol. Houve gente que se recusou a falar ou pedia dinheiro, alegando mis&eacute;ria extrema; houve quem fez depoimentos a solu&ccedil;ar, perdera pais e irm&atilde;os, ficara com incapacidade, cedo o PAIGC os esquecera, a humilha&ccedil;&atilde;o era tal que tinham que trabalhar para compatriotas que auferiam pens&otilde;es vindas de Portugal&hellip; N&atilde;o &eacute; preciso acrescentar mais nada.</span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Esta portentosa narrativa de Abdulai Sila abre com um texto em crioulo, em portugu&ecirc;s reza o seguinte: Os revezes da vida s&atilde;o como fogo do lixo a arder por baixo/Quem me v&ecirc; de longe julga-me palmeira/Mas quem se aproxima sabe/Que eu sou um poil&atilde;o grande/Nem os boab&aacute;s se igualam a mim. &Eacute; narrativa confessional, na primeira pessoa, uma mulher combatente, agora est&aacute; presa a uma velha e esfarrapada cadeiras de rodas, guarda intactas gostosas e amargas recorda&ccedil;&otilde;es de inf&acirc;ncia, dirige-se-nos com forte convic&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Nas noites de indecis&atilde;o procurei a luz redentora, nos vest&iacute;gios da luta pela afirma&ccedil;&atilde;o procurei amparo. Cantei, louvei, celebrei a vida. Mas a vida insistia em querer iludir-me a qualquer momento, a todo o custo, n&atilde;o me reconhecendo o direito a interregno nessa batalha que se anunciava eterna&rdquo;.</span><br /><span>Adorava a m&atilde;e, dela guarda mensagens e senten&ccedil;as, um exemplo: &ldquo;O fim de uma coisa &eacute; sempre o in&iacute;cio de uma outra&rdquo;. Um outro exemplo: &ldquo;Na vida h&aacute; coisas que podes mudar, outras n&atilde;o. Concentra-te naquilo que podes influenciar com a tua a&ccedil;&atilde;o e coloca o resto no seu respetivo lugar. Assim podes vislumbrar o fim de uma situa&ccedil;&atilde;o e o in&iacute;cio de outra. &Eacute; este o segredo da vida&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span>A m&atilde;e morreu, escolheu uma nova m&atilde;e. Crescia e com interpela&ccedil;&otilde;es dolorosas, inquietantes: ser&aacute; que uma mulher tem sempre que pertencer a um homem? Algu&eacute;m lhe disse que a mulher foi feita para sofrer n&atilde;o para mandar. Depois apaixonou-se, o jovem falava-lhe de igualdade, justi&ccedil;a e liberdade e visionava que um dia iriam ser africanos de verdade. E partiu para a guerrilha, l&aacute; longe. Ela decidiu tamb&eacute;m partir, encaminhou-se para Conacri, foi uma habitua&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil. Voltaram-se a ver, houve desentendimento, fez-se enfermeira, mas aquele seu companheiro n&atilde;o lhe sa&iacute;a do esp&iacute;rito. Ela come&ccedil;ara por trabalhar no Lar do PAIGC, sonhara ser professora, n&atilde;o enfermeira. Tornou-se uma enfermeira exemplar. Deslocou-se para a Frente Sul, o seu homem podia ser encontrado em Kubukar&eacute;, a&iacute; ardeu a paix&atilde;o, fizeram um filho. Foi habitar em Bok&eacute;, dali um dia partiram o seu homem e o seu filho, vieram anunciar que tinham morrido. &ldquo;Lembro-me de ter visto o teto branco da enfermaria a fugir de mim e a mudar constantemente de cor. Era um movimento vagaroso, que se repetia sem parar. Separando-se do resto da enfermaria, o teto daquele quarto deslocava-se para cima, em dire&ccedil;&atilde;o &agrave;s nuvens no c&eacute;u e a meio do caminho mudava de cor. Depois voltava para o seu lugar inicial, trazendo e enchendo o quarto do ru&iacute;do ensurdecedor do motor de um cami&atilde;o a alta velocidade. &Agrave;s vezes era s&oacute; o motor do cami&atilde;o, outras vezes vinha misturado com gritos&rdquo;. A guerra chegou ao fim, ela viu a sua Guin&eacute; espl&ecirc;ndida e gloriosa: &ldquo;Eu sou dos in&uacute;meros concidad&atilde;os que definitivamente v&atilde;o voltar para casa magoados, com alguma amputa&ccedil;&atilde;o, tempor&aacute;ria ou vital&iacute;cia. Eu levo todo um sonho amputado&rdquo;.</span><br /><span>A realidade era outra, cedo descobriu que se tinha falado em reconcilia&ccedil;&atilde;o e agora se perseguia sistematicamente os inimigos de ontem, irm&atilde;os guineenses. Ela fora uma guerrilheira com credenciais, deslocou-se por todo o pa&iacute;s &agrave; procura de desaparecidos, aparentemente ningu&eacute;m sabia de nada. Apercebeu-se que tinha havido fuzilamentos. Trabalhou intensamente num internato, queria viver a paix&atilde;o da sua causa, encontrou pela frente a burocracia, a indiferen&ccedil;a, viu o des&acirc;nimo no rosto da gente. E descobriu que o seu partido j&aacute; n&atilde;o se interessava por internatos. &ldquo;Perdido o internato, os meus filhos desapareceram um ap&oacute;s outros, at&eacute; n&atilde;o sobrar nenhum. Mas sinto que est&atilde;o por a&iacute;, entregues &agrave; sua sorte, sem a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de quem devia revelar-lhes as virtudes regeneradoras da f&eacute; e as li&ccedil;&otilde;es da vida tiradas da Hist&oacute;ria&rdquo;.</span><br /><span>E agora ela est&aacute; por ali agarrada &agrave; cadeira, &agrave; procura de respostas que tardam em chegar. Foi amputada de tudo, perdeu companheiro e filho, tiraram-lhe o internato e chegou aquela blasf&eacute;mia de se insinuar que os guineenses n&atilde;o eram capazes de tomar conta da sua terra e de construir o sonho pelo qual tinham combatido. N&atilde;o entende os jovens, com os gestos obscenos, descobriu que os pais s&atilde;o condescendentes porque os filhos n&atilde;o t&ecirc;m profiss&atilde;o. No entanto, ela continua a arder em esperan&ccedil;a, espera nesse novo mundo em que a maldade e o sofrimento n&atilde;o podem existir. Tem orgulho na sua hist&oacute;ria, continua a pensar que nasceram, toda aquela gente nasceu, para uma miss&atilde;o, sabe que vai partir em breve deste mundo, e grita bem alto aquele seu sonho que nunca envelheceu:&nbsp;</span><br /><span>&ldquo;Marginalizados? N&oacute;s &eacute; que domestic&aacute;mos o invasor e abolimos o medo perante o desconhecido. Na calada da noite prenhe de incertezas reinvent&aacute;mos a vida e, bem alto no c&eacute;u, fizemos soar a sinfonia da dignidade.</span><br /><span>Deserdados? Constru&iacute;mos um mundo plural, onde todas as cores do arco-&iacute;ris se fundem sem nunca se confundirem. Recuper&aacute;mos a palavra, e aben&ccedil;oando-a, fizemos com que a magia da narra&ccedil;&atilde;o sustentasse os novos limites da raz&atilde;o. Muito al&eacute;m do verbo e da doutrina.</span><br /><span>N&atilde;o erguemos trof&eacute;us, n&atilde;o exigimos medalhas, nem guard&aacute;mos ressentimentos. Impusemos um novo paradigma da intelig&ecirc;ncia: sem ser m&aacute;rtir nem ambicionar ser her&oacute;i, viver uma paix&atilde;o at&eacute; &agrave; exaust&atilde;o e morrer sonhando&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span>Uma narrativa que muito honra a literatura da Guin&eacute;-Bissau.</span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ Um sol esplendente nas coisas﻿]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-um-sol-esplendente-nas-coisas]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-um-sol-esplendente-nas-coisas#comments]]></comments><pubDate>Wed, 10 Feb 2016 10:36:59 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-um-sol-esplendente-nas-coisas</guid><description><![CDATA[ Por BEJA SANTOS &ndash; &ldquo;Um sol esplendente nas coisas, cartas de M&aacute;rio Cesariny para Alberto de Lacerda&rdquo;, edi&ccedil;&atilde;o de Lu&iacute;s Amorim de Sousa, Sistema Solar, 2015, corresponde &agrave;s cartas, postais e documentos que Cesariny enviou ao seu amigo Alberto de Lacerda. Carteiam-se entre Abril de 1962 e 2000, durante anos tratam-se por voc&ecirc;, a intimidade fez o resto, a certa altura tratam-se por tu. &Eacute; do dom&iacute;nio p&uacute;blico que Cesariny fo [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:left;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:left;max-width:100%;;clear:left;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/5024818_orig.png" style="margin-top: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; margin-right: 10px; border-width:1px;padding:3px; max-width:100%" alt="Imagem" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="display:block;"><span><strong>Por BEJA SANTOS &ndash;</strong> &ldquo;Um sol esplendente nas coisas, cartas de M&aacute;rio Cesariny para Alberto de Lacerda&rdquo;, edi&ccedil;&atilde;o de Lu&iacute;s Amorim de Sousa, Sistema Solar, 2015, corresponde &agrave;s cartas, postais e documentos que Cesariny enviou ao seu amigo Alberto de Lacerda. Carteiam-se entre Abril de 1962 e 2000, durante anos tratam-se por voc&ecirc;, a intimidade fez o resto, a certa altura tratam-se por tu. &Eacute; do dom&iacute;nio p&uacute;blico que Cesariny foi um dos vultos maiores da poesia portuguesa da segunda metade do s&eacute;culo XX, foi artista pl&aacute;stico de nomeada, mas tenho para mim que o Cesariny epistol&oacute;grafo ro&ccedil;a a genialidade: torce e retorce palavras e frases, faz prosa-poema, alaga-se em confid&ecirc;ncias, &eacute; irreverente, pedinch&atilde;o, n&atilde;o esconde adora&ccedil;&otilde;es, amarga-se com mediocridades, &eacute; c&aacute;ustico, toda a sua coloquialidade tem um refinado sentido de humor.</span><br /><span>Estamos em Maio de 1965, fala dos abaixo-assinados: &ldquo;Eu assinei n&atilde;o sei quantas dezenas, de pap&eacute;is iguais ou pares desses. Nunca me recusei nisso, mesmo sabendo que coisas tais n&atilde;o levam coisa nenhuma, mesmo rindo a matar desses cord&eacute;is assinados que sempre ficam bem na &aacute;rvore de Natal da pol&iacute;cia. Assinei nos alegres tempos do MUD, assinei mais tarde, acho que assinei sempre. E assinei porque sim, porque &eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o assinar, porque n&atilde;o se pode n&atilde;o assinar. &Eacute; feio. A isto estamos reduzidos. Eles l&aacute; permanecem na cadeia e n&oacute;s permanecemos aqui decerto porque o presidente da Rep&uacute;blica entendeu que aquelas assinaturas tinham a import&acirc;ncia que tinham. Mas distingo entre a inutilidade destes protestos e a utilidade pessoal de faz&ecirc;-los. Sente-se a pessoa mais limpa, parece que &eacute; entre papel e caneta, j&aacute; que n&atilde;o h&aacute; verdadeiro contacto entre caneta e pa&iacute;s. Mas h&aacute; que denunciar um dia, a gritos, esta ilus&atilde;o: o limpar-se um de caneta em pa&iacute;s onde a pol&iacute;cia impera&rdquo;.</span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Perto de Natal de 1966, endere&ccedil;a ao amigo londrino uma outra reflex&atilde;o: &ldquo;Habito um deserto que teve o h&aacute;bito da conviv&ecirc;ncia. Os mais puros, t&atilde;o pobres e t&atilde;o feridos que lutam por n&atilde;o desperdi&ccedil;ar o mais pequeno sopro&rdquo;. E, admirativo, escreve assim em Maio de 1972: &ldquo;Voc&ecirc; &eacute; uma pessoa admir&aacute;vel e terr&iacute;vel! Entra-lhe o borbot&atilde;o do vulc&atilde;o, escreve, a pobres seres desprevenidos e com a solid&atilde;o j&aacute; organizada, tr&ecirc;s mil linhas incendi&aacute;rias, revolta mais ou menos tudo&hellip; E, depois, fica mais tr&ecirc;s anos sem dar uma linha, retr&oacute;s que fosse&rdquo;.</span><br /><span></span><span>Estamos agora em Junho de 1985, houve o 10 de Junho, ele que detestava a m&uacute;sica de Lopes Gra&ccedil;a, tece uma catilin&aacute;ria: &ldquo;Al&eacute;m da queda do governo a novidade, aqui, &eacute; que, finalmente! Deixamos de ter de ouvir todos os dias pela r&aacute;dio os 43 quartetos s&oacute; para piano, do Lopes Gra&ccedil;a, os duzentos motetos para a arte humana, do Lopes Gra&ccedil;a, e os 11 Requiens pelas V&iacute;timas do Fascismo, Lopes Gra&ccedil;a. Ontem at&eacute; houve a novidade da transmiss&atilde;o de uma de c&acirc;mara do Armando Jos&eacute; Fernandes. Fiquei banzado, n&atilde;o s&oacute; por ser cosia enfim bem mais aud&iacute;vel do que o Lopes Gra&ccedil;a, como pelo facto em si pr&oacute;prio. Outra not&iacute;cia engra&ccedil;ada foi terem dado a Ordem ou Oficialato ou Rub&atilde;o do Infante D. Henrique &agrave; m&atilde;e do Cargaleiro, que faz tapetes e coisas assim&rdquo;. Estamos em Julho de 1977, desta vez a farpa vai para o Fernando de Azevedo: &ldquo;Pois l&aacute; fui ver a tua de colagens e mui admirado fiquei por serem tantas e muitas delas t&atilde;o boas. As que eu gosto mais s&atilde;o as mais esbrancas, quer dizer, esbrancas, quer dizer mais ou menos do recorte bruto, cor e som, que &eacute; uso atacar as colagens. Mas tamb&eacute;m destas h&aacute; que ver. N&atilde;o tanto tempo, porque pr&oacute;ximo o perigo Todo o Mundo e Azevedo. Este, Azevedo, escreveu como sempre um texto bonito. J&aacute; desde a Ant&oacute;nio Arroio, 45 anos atr&aacute;s, ele fazia bonito com um dedo no ar e a compreender tudo muito bem. E salva a devida diferen&ccedil;a que corre entre compreender e empreender&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span></span><span>E h&aacute; momentos em que se sente como o poeta revolteia a l&iacute;ngua e lhe d&aacute; uma desmesura que atravessa toda a sua obra liter&aacute;ria: &ldquo;Querido Alberto pedes um pref&aacute;cio para as tuas colagens como se elas precisam desse pr&eacute;. Um mundo todo &eacute; uma colagem de vivos pegados aos mortos, que se nos tiram quantos j&aacute; se foram, que fica sobre a terra, ou l&aacute; em casa, ou no quadro? Sessenta anos, setenta, do percurso assinado &agrave; vida humana atual? Que s&atilde;o 60 revolu&ccedil;&otilde;es do planeta se n&atilde;o multiplicarmos por 60 trili&otilde;es &ndash; o tri-le&atilde;o, que figura da m&aacute;gica! &ndash; e dos 200 bili&otilde;es &ndash; que grande luz tamb&eacute;m o bi-le&atilde;o! &ndash; de percursos!&rdquo;.</span><br /><span></span><span>Mais adiante, estamos em 1990, e discreteia com um amigo a ess&ecirc;ncia da colagem: &ldquo;O princ&iacute;pio da colagem &ndash; grau zero da associa&ccedil;&atilde;o &ndash; avassalou a escrita e a pintura surrealista at&eacute; &agrave; saciedade, at&eacute; &agrave; exaust&atilde;o. Hoje, a pintura mais realista, mais observadora do modelo greco-romano, d&aacute; a desconfiar. N&atilde;o ser&aacute; colagem, tamb&eacute;m?&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span></span><span>Fala das suas debilidades, das suas leituras requintadas, defende-se atr&aacute;s das suas extravag&acirc;ncias, doente aproveita para gracejar: &ldquo;Ainda que n&atilde;o perguntes, eu, da chamada sa&uacute;de f&iacute;sica, estou bastante mal. Certo?</span><br /><span></span><span>Dobr&aacute;mos o ano 2000, temos a &uacute;ltima carta de Cesariny, que assim termina: &ldquo;N&atilde;o te pergunta aquelas coisas do costume porque j&aacute; estou farto do costume. Mas deve estar certo que eu n&atilde;o esque&ccedil;o, ainda que a lembran&ccedil;a n&atilde;o nos sirva muito, muito&rdquo;.&nbsp;</span><br /><span></span><span>Para quem ponha em d&uacute;vida que a epistolografia pode revelar-se um g&eacute;nero liter&aacute;rio de primeir&iacute;ssima &aacute;gua, leiam mais este Cesariny, que a ningu&eacute;m defrauda.</span><br /><span></span></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ Menos que humanos, por Nuno Rogeiro]]></title><link><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-menos-que-humanos-por-nuno-rogeiro]]></link><comments><![CDATA[https://www.maisnorte.pt/opinion/-menos-que-humanos-por-nuno-rogeiro#comments]]></comments><pubDate>Wed, 10 Feb 2016 10:33:22 GMT</pubDate><category><![CDATA[Uncategorized]]></category><guid isPermaLink="false">https://www.maisnorte.pt/opinion/-menos-que-humanos-por-nuno-rogeiro</guid><description><![CDATA[ Por BEJA SANTOS &ndash; &ldquo;Menos que humanos, Imigra&ccedil;&atilde;o clandestina e tr&aacute;fico de pessoas na Europa&rdquo;, por Nuno Rogeiro, Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 2015, &eacute; um ensaio oportuno e esclarecedor que sai da pena de um analista com provas dadas nos assuntos estrat&eacute;gicos e na geopol&iacute;tica.O autor apresenta a sua obra da seguinte maneira: &ldquo;Este livro &eacute; sobre refugiados das guerras, das persegui&ccedil;&otilde;es, das cat&aacute;st [...] ]]></description><content:encoded><![CDATA[<span class='imgPusher' style='float:right;height:0px'></span><span style='display: table;width:auto;position:relative;float:right;max-width:100%;;clear:right;margin-top:0px;*margin-top:0px'><a><img src="https://www.maisnorte.pt/uploads/2/7/2/2/27221483/5799327_orig.png" style="margin-top: 5px; margin-bottom: 10px; margin-left: 30px; margin-right: 10px; none; max-width:100%" alt="Imagem" class="galleryImageBorder wsite-image" /></a><span style="display: table-caption; caption-side: bottom; font-size: 90%; margin-top: -10px; margin-bottom: 10px; text-align: center;" class="wsite-caption"></span></span> <div class="paragraph" style="text-align:justify;display:block;"><span><strong>Por BEJA SANTOS &ndash;</strong> &ldquo;Menos que humanos, Imigra&ccedil;&atilde;o clandestina e tr&aacute;fico de pessoas na Europa&rdquo;, por Nuno Rogeiro, Publica&ccedil;&otilde;es Dom Quixote, 2015, &eacute; um ensaio oportuno e esclarecedor que sai da pena de um analista com provas dadas nos assuntos estrat&eacute;gicos e na geopol&iacute;tica.<br />O autor apresenta a sua obra da seguinte maneira: &ldquo;Este livro &eacute; sobre refugiados das guerras, das persegui&ccedil;&otilde;es, das cat&aacute;strofes, mas tamb&eacute;m acerca de massas que querem viver melhor e n&atilde;o podem circular regularmente para o destino. E ainda sobre deslocados dentro do pr&oacute;prio pa&iacute;s, e ap&aacute;tridas, e traficados para os neg&oacute;cios da carne e do crep&uacute;sculo do esp&iacute;rito, e gera&ccedil;&otilde;es que crescem em campos, sem no&ccedil;&atilde;o de quem s&atilde;o e do que s&atilde;o. Sempre em tr&acirc;nsito, sempre parados&rdquo;. Muitos deles s&atilde;o filhos das batalhas: de guerras civis sem regras (caso da S&iacute;ria), da decomposi&ccedil;&atilde;o de um pa&iacute;s (Iraque, Som&aacute;lia, Afeganist&atilde;o), v&ecirc;m de comunidades religiosas perseguidas (Nig&eacute;ria) ou fogem de regime de partido &uacute;nico de perfil totalit&aacute;rio (Eritreia). Neste ensaio ouviremos repetidamente falar do ACNUR (Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados) e da avalanche migrat&oacute;ria dos &uacute;ltimos anos. H&aacute; fugitivos que escapam a m&uacute;ltiplas for&ccedil;as, como nos recorda o autor: o regime de Assad, o Daesh, outras for&ccedil;as jihadistas, gangues locais, mil&iacute;cias estatais e antiestatais, grupos de autodefesa, combatentes estrangeiros; h&aacute; os que fogem aos bombardeamentos a&eacute;reos, que se encontram encurralados e fogem de vingan&ccedil;as tribais.</span></div> <hr style="width:100%;clear:both;visibility:hidden;"></hr>  <div>  <!--BLOG_SUMMARY_END--></div>  <div class="paragraph" style="text-align:left;"><span>Para se entender a resposta europeia (ou a sua n&atilde;o resposta &agrave; altura dos acontecimentos) &eacute; preciso conhecer a pol&iacute;tica europeia de vizinhan&ccedil;a (PEV), as suas balizas, ideologia, sem descurar aqueles problemas hist&oacute;ricos de fronteiras, de ocupa&ccedil;&atilde;o ou atrito ou de empolamentos de grupos nacionalistas ou &eacute;tnicos encravados em Estados. Nuno Rogeiro d&aacute;-nos o quadro do funcionamento da ag&ecirc;ncia Frontex no dom&iacute;nio da seguran&ccedil;a fronteiri&ccedil;a e enuncia a lista de respostas que a Comiss&atilde;o Europeia prop&otilde;e para a crise dos migrantes. E satisfaz a nossa curiosidade quando nos perguntamos porque &eacute; que a crise migrante se assentou no Ver&atilde;o. A resposta &eacute; simples: a acalmia das &aacute;guas do Mediterr&acirc;nio, o agravamento geopol&iacute;tico (conflitos na L&iacute;bia mais intensos), o caos afeg&atilde;o, o Daesh mais ativo no Afeganist&atilde;o e Paquist&atilde;o, o exacerbamento no Iraque e na S&iacute;ria, mas tamb&eacute;m na Nig&eacute;ria, na Som&aacute;lia, na Eritreia: &ldquo;Na atual crise, e se olharmos s&oacute; para o fim do Ver&atilde;o, princ&iacute;pio do Outono, v&iacute;amos que 71% dos migrantes chegavam &agrave; Europa vindos da S&iacute;ria, Eritreia e do Afeganist&atilde;o, e 72% era adultos, embora algumas rotas pudessem verificar maior n&uacute;mero de crian&ccedil;as. Os restantes 29% vinham do Iraque, Nig&eacute;ria, Som&aacute;lia, Sud&atilde;o e G&acirc;mbia, Senegal e Mali&rdquo;.</span><br /><span></span><span>O autor desvela os bastidores da trafic&acirc;ncia da imigra&ccedil;&atilde;o clandestina, quem s&atilde;o os transportadores, quem conduz este neg&oacute;cio de escravos, quais as rotas de partidas e chegadas, &eacute; neste ponto que a investiga&ccedil;&atilde;o de Nuno Rogeiro se revela altamente esclarecedora, ficamos a saber como se opera nos Balc&atilde;s e no Leste, em It&aacute;lia, quais os nichos de crime, o papel desempenhado pelas velhas e novas m&aacute;fias que atuam nos continentes africano, asi&aacute;tico e europeu, identificam-se os organizadores, os recrutadores, os informadores, os tripulantes, os correios, os fornecedores e ficamos igualmente a saber como se opera, a n&iacute;vel europeu para investigar e desmascarar. Mas h&aacute; tamb&eacute;m as teias da corrup&ccedil;&atilde;o, e o que delas se sabe. No final da sua investiga&ccedil;&atilde;o, o autor aborda as respostas poss&iacute;veis, como acolher, como estabelecer barreiras, etc.</span><br /><span></span><span>Reportagem atual&iacute;ssima, redigida com vivacidade e documentos na m&atilde;o. Proporciona-nos ume esclarecimento rigoroso sobre quem s&atilde;o os milh&otilde;es que chegam Europa, de onde v&ecirc;m e o que querem, quais as suas rotas de passagem, que tr&aacute;fico infame se instalou para estes seres humanos e qual o pano do fundo que envolve a corrida destes milh&otilde;es de seres humanos &agrave; procura da paz, do trabalho ou, muito simplesmente, n&atilde;o morrer num imbricado terreno de guerras religiosas e civis.&nbsp;</span>&#8203;<br /><span></span></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>